
A tragédia, assim como a comédia, surge do culto a Dionísio. A tragédia deriva-se dos momentos da cerimônia marcados por uma concentração em que se entoavam canções plangentes e se faziam reflexões sérias e tristes sobre as vicissitudes da vida humana. A palavra tragédia vem do grego tragoidía, literalmente “canto do bode”. O termo faz referência ao canto religioso com que se acompanhava o sacrifício de um bode nas festas do deus Dionísio, chamado Baco pelos romanos. Ésquilo e Sófocles e Eurípedes são considerados os maiores autores trágicos e fizeram do século V a.C. o ápice do teatro trágico grego.
As obras trágicas tinham, pelo menos, quatro características essenciais: presença de um fator transcendental (destino, deuses, etc.); unidade de salvação e aniquilamento (o herói, com a intenção de salvar-se acaba sendo responsável pelo seu aniquilamento); clima de tensão permanente e final trágico.
A tragédia teve um papel fundamental na construção de uma ética dos cidadãos gregos. Numa sociedade em que a vontade e a responsabilidade individual não prevaleciam e o sentido do coletivo é que deveria determinar as ações, o teatro trágico era uma forma que os gregos encontraram de regular e controlar as paixões. Esse controle sobre as paixões, no entanto, não é uma preocupação apenas da civilização grega antiga, todas as sociedades, de um modo ou de outro, tentaram manter as paixões sob controle. Seus excessos levam a um estado de desmesura, gerando mal-estar no homem e na cultura.
Aristóteles na “Poética” (obra na qual o filósofo discute e analisa as formas poéticas típicas do mundo grego, como a tragédia e a comédia), afirma que a tragédia, através de dois sentimentos fundamentais – o temor e a compaixão – operava a kátharsis das paixões.
CATÁRSE:
TRATA-SE DE UM ALÍVIO ORIGINADO PELO FATO DE QUE ALGUMA COISA – EMOCIONAL OU FÍSICA SOFREU UMA DESCARGA, OBTEVE UM FLUXO LIVRE, ELIMINANDO UMA TENSÃO.
Essa catarse da tragédia visava produzir no expectador a purificação ou a sublimação dos sentimentos de compaixão e de temor mantendo-os em justo equilíbrio. A compaixão brotava do fato de o herói sofrer imerecidamente, já que suas ações não decorriam de maldades praticadas, mas, de uma fatalidade, como se vê na peça “Édipo Rei”. O temor decorria da semelhança que o herói tinha com o espectador, enquanto homem mortal e sujeito a infortúnios. Mas o infortúnio, como a morte, devia vir de fora, como um estrangeiro e não como algo familiar, por isso é que só os infortúnios de outrem é que se prestavam a uma encenação trágica.
As paixões habitam o homem fazendo dele seu servo. O homem como ser de paixão e desejo, precisa de uma mediação, precisa de meios para atualizar essas paixões com moderação. A encenação trágica servia, então, de mediação para que, através do jogo de identificações alternadas, favorecido pela retórica, o espectador pudesse conhecer e moderar as suas paixões.
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