Apresentação

Partimos do pressuposto existencialista segundo o qual “o homem primeiramente existe, se descobre, surge no mundo; e só depois se define” (SARTRE). Assim, não acreditamos num sentido para a vida dado à priori, mas na construção desse sentido a partir das escolhas que fazemos ao longo da existência. Essa construção, no entanto, é realizada a partir de um mundo social. Como esse mundo social nos antecede, somos levados a crer que ele é algo fixo e imutável e a escolher de acordo com os valores e padrões já estabelecidos, como se nada pudesse ser mudado.

A proposta do Movimento Cultural Algaravia é “desnaturalizar” o mundo social a fim de que outros sentidos para a vida (além dos construídos pelo sistema de produção-consumo-mais produção-mais consumo) possam emergir. Utilizando as linguagens da Literatura, do Cinema, do Teatro e da Filosofia, pretendemos abrir espaços para que idéias, sentimentos, significados se cruzem, se confrontem, se interpelem e se complementem forjando uma abertura para novas possibilidades de compreensão e atuação na vida.

domingo, 1 de março de 2009


THEATRON
“LUGAR DE ONDE SE VÊ”


“O teatro é a representação da vida do espírito humano,
ao vivo e em forma artística”.
Stanislavski



Teatro é representação, (re-presentar, tornar presente outra vez) traz a idéia de imitação, de repetição da simulação, ou seja uma situação é simulada e repetida a cada apresentação do espetáculo. E como espetáculo, traz, genericamente, a idéia de algo que vale a pena ser visto.

No teatro, quem assiste à ação imitada e quem a pratica compartilham o mesmo espaço e tempo. O espectador torna-se cúmplice do ator na representação: sabe que se trata de uma imitação, mas reage como se estivesse diante da personagem a praticar a ação imaginada. Além disso, a imaginação, as experiências de vida do espectador, seus sentimentos e opiniões ajudam a compor as cenas apresentadas.

O jogo dramático corresponde a uma fase do desenvolvimento humano. Em todos os povos, em todos os tempos, as crianças passam pela fase do faz-de-conta. Nesta fase desenvolvem-se os jogos de identificação em que a criança assume papéis diversos, ensaiando para a vida. Durante essas “brincadeiras” conflitos afloram naturalmente e são enfrentados sem culpa e sem temores, dando origem a um precioso banco de dados que será consultado mais tarde, quando o indivíduo tiver que tomar decisões complexas.

A capacidade de falar com clareza e fluência, bem como a capacidade de argumentar com lógica e astúcia são treinadas. A expressividade do gesto e da face também é exercitada. Um imenso arsenal lógico, emocional e fisiológico é construído.

No ser humano adulto, esse mecanismo de identificação e simulação, o prazer do jogo interpessoal através do artifício de assumir outros papéis, permanece latente. Em geral não é exercitado. Convém ao adulto médio especializar-se em alguns poucos papéis, vestindo as máscaras sociais convenientes e esperadas. Para o mundo adulto, quanto mais previsível for o indivíduo, mais confiável ele será.

A diferença entre os jogos infantis e o teatro, propriamente dito, é que a criança quando representa o papel de pai ou de mãe em suas brincadeiras não precisa ser vista por ninguém, enquanto o teatro é, essencialmente, o jogo de ver e ser visto. Ator, personagem e espectador são elementos indispensáveis ao teatro. Se um deles não estiver presente, não há teatro.

A palavra teatro refere-se tanto ao lugar onde se realizam os espetáculos quanto à arte específica transmitida por um ou mais atores para o público. Essas duas idéias ligam-se à origem etimológica do termo: Theatron, em grego, que quer dizer “lugar de onde se vê”. Nos lugares onde eram encenadas as peças na Grécia antiga, theatron correspondia à platéia. E, mais primitivamente, era o terreno inclinado (geralmente a encosta de uma colina) onde o público se acomodava para ver a representação.


O TEATRO na grécia antiga

A origem do teatro está relacionada às cerimônias religiosas de culto a Dionísio (Baco para os romanos), deus do vinho e da fertilidade no século VI a.C. Em homenagem a esse deus, os gregos realizavam procissões à época da colheita da uva nas quais os participantes vestiam-se de bodes (uma das representações do deus), bacantes (adoradoras do deus Dionísio) e sátiros (figuras mitológicas metade homem e metade animal) e narravam a história mitológica desse deus.

Durante as procissões entoavam-se cantos e danças em louvor a Dionísio. Esses cantos eram chamados de ditirambos e, com o passar do tempo, as procissões foram ficando mais elaboradas. Surgiram os “diretores do coro” (organizadores das procissões). Em um determinado momento, um dos participantes do coro, (coreuta) passou a destacar-se e liderar o coro, “dialogando” com este, a partir do que passou a chamar-se corifeu. Contudo, a forma narrativa ainda se manteve até que, Téspis, um corifeu transforma o ritual dionisíaco, encarnando o próprio deus Dionísio, mudando assim a narração da terceira para a primeira pessoa, ou seja, passando a representação da forma narrativa para a dramática. Téspis é considerado o primeiro ator da história.


QUANDO SURGIU, O ATOR ERA CHAMADO HIPOKRITES (RESPONDEDOR), QUE DEU ORIGEM À PALAVRA HIPÓCRITA (AQUELE QUE FINGE SER O QUE NÃO É).

O teatro grego era um espetáculo composto de música, canto, dança e diálogo. A princípio só um ator dialogava com o coro e com o corifeu. O poeta dramático Ésquilo (525-456 a.C.) foi o primeiro a utilizar dois atores em cena, o protagonista (literalmente “primeiro competidor”) e o deuteragonista (segundo competidor). Sófocles (496-406 a.C.) foi quem criou um terceiro ator, o tritagonista. Com a utilização de máscaras, tais atores faziam todos os personagens da peça.

Na Grécia antiga, eram realizados festivais onde havia uma rigorosa seleção dos poetas dramáticos participantes. No primeiro dia, cada poeta, acompanhado do coro e dos atores (sem máscaras), subia ao palco e anunciava os assuntos das suas peças. O concurso durava três dias e classificavam-se três tragédias e uma peça satírica. Chamava-se esse conjunto tetralogia. As tragédias eram encenadas pela manhã e a comédia á tarde.

Para os gregos, o teatro era um acontecimento cívico e religioso tão importante que era subsidiado (recebia recursos financeiros) pelo estado e pelos cidadãos mais ricos. Os cidadãos mais pobres recebiam seus ingressos de graça e até as mulheres podiam assistir aos espetáculos – em uma sociedade que proibia a presença de mulheres nas Olimpíadas, por exemplo. Nada funcionava durante a semana do festival e, no fim, um júri premiava os melhores autores e atores.

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