
A tarde era nova em folha e os ventos da colina sacudiam a menina nua. O céu, também despido de nuvens, era de um azul médio, mas havia entre o céu e a colina uma cor que ninguém saberia nomear. O mato crescia naquele exato momento e cheirava molhado e macio e provocava arrepios de prazer ao respirar. Exposta e trêmula como uma bandeira a menina empanturrava-se de vida, sem prato e sem talher.
Nessa hora, a escola fervilhava. Burburinho de vozes nas salas de teto baixo, oprimidas pelo calor. De vez em quando, um grito. Crianças deslocando-se devagar, a fila, a merenda, o banco, a correria, o sinal, a fila, o caderno, o lápis, a voz da professora. Tudo longe, muito longe, tudo muito irreal. A tarde era a única verdade completa: a menina não pensava em crescer e crescia em outras dimensões.
À noite, alguém acenderia luzes amarelas e a menina teria que procurar o caminho de casa, olhando para o chão. Cobrir-se-ia de costumes, rotinas, expectativas. Teria medo do escuro e esperança de ter um futuro feliz. Depois, arranjaria um emprego, um marido e o mundo seria parado, oco, convencional. A vida impedida de circular, a tarde nova aprisionada dentro do peito causando desconforto ao coração.
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