Apresentação

Partimos do pressuposto existencialista segundo o qual “o homem primeiramente existe, se descobre, surge no mundo; e só depois se define” (SARTRE). Assim, não acreditamos num sentido para a vida dado à priori, mas na construção desse sentido a partir das escolhas que fazemos ao longo da existência. Essa construção, no entanto, é realizada a partir de um mundo social. Como esse mundo social nos antecede, somos levados a crer que ele é algo fixo e imutável e a escolher de acordo com os valores e padrões já estabelecidos, como se nada pudesse ser mudado.

A proposta do Movimento Cultural Algaravia é “desnaturalizar” o mundo social a fim de que outros sentidos para a vida (além dos construídos pelo sistema de produção-consumo-mais produção-mais consumo) possam emergir. Utilizando as linguagens da Literatura, do Cinema, do Teatro e da Filosofia, pretendemos abrir espaços para que idéias, sentimentos, significados se cruzem, se confrontem, se interpelem e se complementem forjando uma abertura para novas possibilidades de compreensão e atuação na vida.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Os sonhos de Akira



















Por Ednéia Angélica Gomes

O ponto alto do encontro de lançamento do Movimento Algaravia, realizado no último sábado 20.09.2008, foi a exibição do curta-metragem “Aldeia dos Moinhos”, um dos episódios do filme “Sonhos”, do cineasta japonês Akira Kurosawa. No curta, as belas imagens do moinho impulsionado pela correnteza deixam transparecer a paixão do cineasta pela pintura. Num verdadeiro paraíso natural, um ancião explica a um jovem viajante as vantagens de se viver em paz com a natureza. Depois da exibição do vídeo houve comentários e debate. O comentarista fez uma crítica à idéia de progresso e o debate versou sobre a insensatez do mundo capitalista que ainda vive em função do aumento da produção e do consumo, apesar de já começar a sofrer os efeitos da degradação ambiental.

Para a visão mecanicista do mundo (Descartes), tipicamente moderna, ciência e tecnologia criariam um mundo mais ordenado, gerariam mais conforto e bem-estar para todas as pessoas. Esse tipo de pensamento começou a ganhar força a partir do século XVIII, também conhecido como século das Luzes. Nesse período, a ciência descobriu as “leis imutáveis” da natureza e, a partir dessa descoberta foi possível criar novas técnicas e máquinas que trouxeram enormes transformações materiais e morais para a sociedade. Uma nova postura diante do mundo surgiu a partir daí: o homem não precisaria mais esperar pelo paraíso depois da morte, poderia construí-lo com suas próprias mãos, transformando a natureza.

Nos dias de hoje, vemos esse tão sonhado paraíso terrestre converter-se numa brutal desigualdade de renda: miséria e fome em algumas partes do mundo e um consumismo desenfreado em outras. E a enorme capacidade humana de transformar a natureza revelar-se uma ilimitada capacidade de destruição: a superprodução de lixo, o aquecimento global, a poluição. Apesar disso, o ideal de aumentar cada vez mais a produção e o consumo ainda prevalecem. O filme de Kurosawa é, antes de qualquer coisa, uma denúncia da irracionalidade desse tipo de pensamento. Como o antropólogo Roberto da Matta alerta: “Devemos voltar a pensar a sociedade não contra a natureza, mas com ela; e a natureza como sendo ela mesma um sujeito dotado de humanidade.” Essa parece ser a lição que, de forma simples e poética, o ancião tenta passar para o jovem.

Nenhum comentário: