Apresentação

Partimos do pressuposto existencialista segundo o qual “o homem primeiramente existe, se descobre, surge no mundo; e só depois se define” (SARTRE). Assim, não acreditamos num sentido para a vida dado à priori, mas na construção desse sentido a partir das escolhas que fazemos ao longo da existência. Essa construção, no entanto, é realizada a partir de um mundo social. Como esse mundo social nos antecede, somos levados a crer que ele é algo fixo e imutável e a escolher de acordo com os valores e padrões já estabelecidos, como se nada pudesse ser mudado.

A proposta do Movimento Cultural Algaravia é “desnaturalizar” o mundo social a fim de que outros sentidos para a vida (além dos construídos pelo sistema de produção-consumo-mais produção-mais consumo) possam emergir. Utilizando as linguagens da Literatura, do Cinema, do Teatro e da Filosofia, pretendemos abrir espaços para que idéias, sentimentos, significados se cruzem, se confrontem, se interpelem e se complementem forjando uma abertura para novas possibilidades de compreensão e atuação na vida.

domingo, 10 de agosto de 2008

DONA LAURA

Ednéia Angélica Gomes

No dia do noivado da filha Eloísa, Dona Laura abriu o pequeno baú de couro, guardado por mais de três décadas. A filha curiosa quis saber:

_ O que tem aí dentro, mamãe? E como a senhora conseguiu guardar este baú vida afora, passando por tantas dificuldades, sem que ninguém percebesse?

É, a vida havia sido dura e Eloísa, embora fosse a caçula, acompanhara boa parte dos sofrimentos da mãe. Sabia que Dona Laura havia ficado órfã aos dois anos de idade e que, desde então, passara de um parente a outro, terminando com os avós. Sabia que a mãe tinha se casado muito jovem, com seu pai, um homem bruto e beberrão que acreditava que os homens se tornam mais “machos” quando batem nas mulheres. Vira o sacrifício da mãe para alimentar os sete filhos, enquanto o pai, desempregado e bêbado roncava no sofá da sala. Mas, o que Eloísa nunca soube é que a mãe guardava um baú.

Dona Laura, então, tirou de dentro do baú um pote no qual se lia: “creme para cabelos lisos”, e explicou:

_ Esse creme nunca foi usado, minha filha. Eu o ganhei no dia do meu casamento. Do seu pai.

Eloísa ficou pensativa. Lembrou-se dos lindos cabelos negros e lisos que dona Laura tinha e que agora estavam quase todos brancos. Não entendeu por que a mãe guardou o creme em vez de usá-lo. “Se ela tivesse usado o creme” pensou “talvez meu pai tivesse lhe dado mais valor”. A construção desse pensamento assemelhava-se a uma traição e custou a Eloísa duas grossas lágrimas. Ela amava a mãe. Muito.

É que a nossa Eloísa, como todas as pessoas do seu tempo, acreditava que o valor das mulheres era proporcional à quantidade de roupas da moda, acessórios e cosméticos que usavam. Entretanto, ela pressentia, na atitude da mãe, uma dolorosa sabedoria que escapava a essa lógica. Toda uma dimensão obscura da vida veio turvar suas certezas mais mesquinhas. E justo agora que ia se casar!

Nessa hora, entra na sala Sérgio, noivo de Eloísa, que ao ficar sabendo da história comenta:

_ Esse pote de creme, hoje, não deve valer nem dois reais.

Então era isso. Eloísa explode em choro...

_Você é como todo mundo, Sérgio! Não pára de pensar em dinheiro!

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