Por Ednéia Angélica Gomes
“O valor que cada um possui aos olhos do outro é o valor dos seus respectivos bens. Portanto, em si o homem não tem valor para nós.”
Karl Marx
A discussão sobre consumo e consumismo foi o principal item na pauta da reunião do Movimento Algaravia realizada no dia 06.07.2008. O debate foi intenso e cheio de divergências. Por ser essa uma questão crucial para os objetivos do Movimento (se pretendemos criar espaços em que prevaleça uma lógica social diferente da lógica da sociedade de consumo), o assunto precisa ser retomado em outras ocasiões. É pensando dessa forma que resolvi registrar a minha forma de compreender o problema. Explicitando melhor o meu ponto de vista, espero contribuir para fomentar o debate.
Acredito que a pirâmide das necessidades humanas proposta por Maslow, pode nos ajudar nessa discussão. Segundo esse autor, as necessidades humanas estão dispostas numa hierarquia de importância e influência. Na base estão as necessidades mais urgentes (necessidades fisiológicas) e no topo, as necessidades menos urgentes (necessidades de auto-realização):
1º necessidades fisiológicas
2º necessidades de segurança
3º necessidades de afeto
4º necessidades de pertencimento ao grupo social (status e estima)
5º necessidades de auto-realização
As necessidades fisiológicas são básicas para a sobrevivência: necessidade de alimento, sono, sexo. As necessidades de segurança estão relacionadas com a segurança física e psíquica – significam a necessidade de abrigo, agasalho e proteção que é provocada pelo temor ao desconhecido, ao novo, ao não familiar à mudança, à instabilidade, etc. As necessidades de afeto estão ligadas aos sentimentos de amor e de pertinência que ligam as pessoas que se relacionam intimamente. Já as necessidades de status e estima ocorrem apenas quando o homem se apresenta alimentado e seguro, e dizem respeito ao valor de cada pessoa nos intercâmbios sociais. Por último, existem as necessidades de auto-realização; nesta fase, o indivíduo tem a necessidade de desenvolver as suas potencialidades, de conhecer, estudar, sistematizar, organizar, filosofar.
O consumo, a meu ver, é absolutamente indispensável para a satisfação da 1ª e da 2ª necessidades, já o consumismo está diretamente relacionado à satisfação da 4ª necessidade, de pertencimento ao grupo social (status e auto-estima). Isso porque, nos dias de hoje, nunca se consome um produto em si (pelo seu valor de uso), mas pelos valores simbólicos da identificação e diferenciação social. Por exemplo: se os sapatos fossem utilizados apenas para proteger os pés, só íamos precisar de sapatos novos quando os velhos estivessem furados ou estragados. Isso pode fazer sentido para certo professor universitário com fama de excêntrico, entretanto, para a maioria das pessoas, comprar sapatos não significa apenas satisfação da necessidade de proteção, mas a afirmação da sua auto-imagem, do seu status. A compra é fortemente influenciada pela imagem que o consumidor tem do produto, ele busca encontrar no bem material características que reflitam sua auto-imagem, seu auto-conceito, com o objetivo de fortalecer a imagem que tem de si próprio frente aos outros.
Assim, a 4ª necessidade perpassa todas as necessidades anteriores e, não por acaso, é a mais explorada pela publicidade. A racionalidade no uso dos produtos perde espaço para valores simbólicos considerados essenciais para o bem-estar dos indivíduos. Esses valores simbólicos, manipulados pela mídia, criam necessidades cada vez maiores levando os indivíduos consumirem cada vez mais. A noção racionalista de necessidade é transcendida pela sociedade de consumo, segundo Baudrillard, culminando em uma lógica
em que o desperdício, longe de figurar como resíduo irracional, recebe uma função positiva, substituindo a utilidade racional numa funcionalidade social superior, que se revela, no limite, como a função essencial – torna-se o aumento da despesa, o supérfluo, a inutilidade ritual do ‘gasto para nada’, um lugar de produção de valores, das diferenças e do sentido – tanto no plano individual como no plano social (1968).
O mercado exacerba a necessidade de auto-estima e status colocando todas as precedentes (fisiológica, de segurança e de afeto) sob seu domínio. Entretanto, a meu ver, o principal perigo da intensificação dessa 4ª necessidade é o ocultamento da 5ª necessidade (de auto-realização). Isso porque a preocupação em manter uma boa imagem perante a sociedade oblitera a consciência da necessidade humana de se realizar plenamente em todas as suas potencialidades. Creio que é a isso que Marx se refere quando diz que “em si o homem não tem valor para nós.” Ou seja, se o valor de cada um é medido pelo que possui, não há razão para nos esforçamos em melhorar o que somos.
Para caminhar na contramão da sociedade de consumo, creio que a nossa primeira ação deve ser rever os conceitos acerca dos valores sociais que nos guiam, pois a lógica do ser nunca vai superar a lógica do ter, enquanto estivermos preocupados com a imagem que as pessoas têm de nós. Eu sei que essa não é uma caminhada fácil. Muitas vezes vamos ser mal interpretados, vamos ser taxados de estranhos, esquisitos, mas precisamos passar por tudo isso se queremos construir um caminho autônomo em vez de, simplesmente, continuar seguindo a multidão. Contudo, não se trata de adotar uma atitude anti-social, ao contrário disso, trata-se de tentar uma aproximação das pessoas pelo que elas são, de verdade. E não pelo que aparentam ser, através das coisas às quais se ligam.
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