Apresentação

Partimos do pressuposto existencialista segundo o qual “o homem primeiramente existe, se descobre, surge no mundo; e só depois se define” (SARTRE). Assim, não acreditamos num sentido para a vida dado à priori, mas na construção desse sentido a partir das escolhas que fazemos ao longo da existência. Essa construção, no entanto, é realizada a partir de um mundo social. Como esse mundo social nos antecede, somos levados a crer que ele é algo fixo e imutável e a escolher de acordo com os valores e padrões já estabelecidos, como se nada pudesse ser mudado.

A proposta do Movimento Cultural Algaravia é “desnaturalizar” o mundo social a fim de que outros sentidos para a vida (além dos construídos pelo sistema de produção-consumo-mais produção-mais consumo) possam emergir. Utilizando as linguagens da Literatura, do Cinema, do Teatro e da Filosofia, pretendemos abrir espaços para que idéias, sentimentos, significados se cruzem, se confrontem, se interpelem e se complementem forjando uma abertura para novas possibilidades de compreensão e atuação na vida.

sábado, 31 de janeiro de 2009

PIPAS



Final de janeiro. Eu observo, numa rua perto da minha casa, três meninos fazendo pipas. Saem de casa com pedaços de bambu, plásticos, colas, linhas e uma faca de corte. Sentam-se na calçada e começam a trabalhar. Compartilham o material e a faca afiada passa de mão em mão: corta o plástico, lixa o bambu, com maestria, sem causar acidentes. Experimentam a taquara no plástico. Ainda não, ainda está muito grossa. É preciso lixar até que fique leve e flexível, porém, um lixou demais e o bambu perdeu a força. É preciso cortar outro e começar o trabalho novamente. Sem problemas...

Depois de prontas as pipas, é preciso esperar pelo vento. Os meninos correm de um lado para o outro, gritam e xingam até que, finalmente, o vento resolve soprar e o brinquedo de plástico eleva-se no ar. Nessa hora, o tempo pára. O corpo treme de emoção. Toda a dureza da vida converte-se em beleza e sonho e sobe para o céu nebuloso. Os meninos sonham acordados, correndo, pulando e rindo.

Logo será fevereiro. Esses meninos estarão na escola. Depois da euforia provocada pelos cadernos novos e pelo reencontro com os colegas, lá estarão os nossos pequenos fazedores de pipas, ouvindo, copiando e olhando para o relógio o tempo todo com vontade de sair dali. Mas, por que não se entregam à busca de conhecimento com o mesmo entusiasmo, com a mesma persistência com que se entretinham fazendo e soltando pipas? Ora, dirão, fazer pipa é muito mais gostoso do que estudar. Fazer pipa é divertimento, estudar é obrigação.

Ainda crianças, aprendemos a separar trabalho e prazer. Aprendemos que as coisas chatas são necessárias e que as coisas necessárias inevitavelmente têm que ser chatas. A escola é chata, mas precisamos dela para arranjar emprego. O trabalho é chato, mas precisamos dele para ganhar dinheiro para comer, beber, vestir e nos divertir depois. Contudo, quem dirá que fazer pipa também não dá trabalho? Pergunte a qualquer garoto! O problema é que o trabalho, na escola e na maioria dos “empregos”, não comporta a dimensão da criação. Na escola nós repetimos as letras, depois as palavras, depois as frases, depois o texto. No trabalho, repetimos os procedimentos, as maneiras de fazer, mas não vibramos ao ver funcionar aquilo que fizemos, porque não foi criação nossa.

Na era da industrialização e da globalização, a criação está a cargo de poucos e a grande maioria da população apenas repete, repete, repete e repete. Dessa forma, o trabalho em si não encerra satisfação alguma. A compensação está fora dele, nas coisas que podemos comprar com o dinheiro que ganhamos. Trabalhamos para ter uma TV de 42 polegadas, um carro zero, uma roupa da moda, etc. Tudo isso traz algum tipo de satisfação, é verdade, mas a satisfação do consumo jamais poderá ser comparada à emoção que eu vi nos rostos dos meninos que faziam e soltavam pipas.

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