
Final de janeiro. Eu observo, numa rua perto da minha casa, três meninos fazendo pipas. Saem de casa com pedaços de bambu, plásticos, colas, linhas e uma faca de corte. Sentam-se na calçada e começam a trabalhar. Compartilham o material e a faca afiada passa de mão em mão: corta o plástico, lixa o bambu, com maestria, sem causar acidentes. Experimentam a taquara no plástico. Ainda não, ainda está muito grossa. É preciso lixar até que fique leve e flexível, porém, um lixou demais e o bambu perdeu a força. É preciso cortar outro e começar o trabalho novamente. Sem problemas...
Depois de prontas as pipas, é preciso esperar pelo vento. Os meninos correm de um lado para o outro, gritam e xingam até que, finalmente, o vento resolve soprar e o brinquedo de plástico eleva-se no ar. Nessa hora, o tempo pára. O corpo treme de emoção. Toda a dureza da vida converte-se em beleza e sonho e sobe para o céu nebuloso. Os meninos sonham acordados, correndo, pulando e rindo.
Logo será fevereiro. Esses meninos estarão na escola. Depois da euforia provocada pelos cadernos novos e pelo reencontro com os colegas, lá estarão os nossos pequenos fazedores de pipas, ouvindo, copiando e olhando para o relógio o tempo todo com vontade de sair dali. Mas, por que não se entregam à busca de conhecimento com o mesmo entusiasmo, com a mesma persistência com que se entretinham fazendo e soltando pipas? Ora, dirão, fazer pipa é muito mais gostoso do que estudar. Fazer pipa é divertimento, estudar é obrigação.
Ainda crianças, aprendemos a separar trabalho e prazer. Aprendemos que as coisas chatas são necessárias e que as coisas necessárias inevitavelmente têm que ser chatas. A escola é chata, mas precisamos dela para arranjar emprego. O trabalho é chato, mas precisamos dele para ganhar dinheiro para comer, beber, vestir e nos divertir depois. Contudo, quem dirá que fazer pipa também não dá trabalho? Pergunte a qualquer garoto! O problema é que o trabalho, na escola e na maioria dos “empregos”, não comporta a dimensão da criação. Na escola nós repetimos as letras, depois as palavras, depois as frases, depois o texto. No trabalho, repetimos os procedimentos, as maneiras de fazer, mas não vibramos ao ver funcionar aquilo que fizemos, porque não foi criação nossa.
Na era da industrialização e da globalização, a criação está a cargo de poucos e a grande maioria da população apenas repete, repete, repete e repete. Dessa forma, o trabalho em si não encerra satisfação alguma. A compensação está fora dele, nas coisas que podemos comprar com o dinheiro que ganhamos. Trabalhamos para ter uma TV de 42 polegadas, um carro zero, uma roupa da moda, etc. Tudo isso traz algum tipo de satisfação, é verdade, mas a satisfação do consumo jamais poderá ser comparada à emoção que eu vi nos rostos dos meninos que faziam e soltavam pipas.
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