Apresentação

Partimos do pressuposto existencialista segundo o qual “o homem primeiramente existe, se descobre, surge no mundo; e só depois se define” (SARTRE). Assim, não acreditamos num sentido para a vida dado à priori, mas na construção desse sentido a partir das escolhas que fazemos ao longo da existência. Essa construção, no entanto, é realizada a partir de um mundo social. Como esse mundo social nos antecede, somos levados a crer que ele é algo fixo e imutável e a escolher de acordo com os valores e padrões já estabelecidos, como se nada pudesse ser mudado.

A proposta do Movimento Cultural Algaravia é “desnaturalizar” o mundo social a fim de que outros sentidos para a vida (além dos construídos pelo sistema de produção-consumo-mais produção-mais consumo) possam emergir. Utilizando as linguagens da Literatura, do Cinema, do Teatro e da Filosofia, pretendemos abrir espaços para que idéias, sentimentos, significados se cruzem, se confrontem, se interpelem e se complementem forjando uma abertura para novas possibilidades de compreensão e atuação na vida.

terça-feira, 29 de julho de 2008

Por uma revolução cultural

Por Ednéia Angélica Gomes


Em artigo intitulado A revolução dos bichos, Lula a imprensa e o povo, publicado no blog do Movimento Algaravia no dia 26.07.2008, Erinilton Gomes chama a atenção para o difícil problema da representação e suas implicações no atual cenário político brasileiro. A abordagem sóbria e inteligente destaca a atuação da imprensa que, em vez de ajudar o “cidadão” a entender os rumos políticos do país, o confunde ainda mais através da manipulação das informações ao sabor de interesses particulares. Seduzido pelos prazeres do consumo, obrigado a dispender cada vez mais energia para a manutenção das suas necessidades, confuso em relação ao complexo funcionamento do aparato político, o povo brasileiro está cada vez mais suscetível às manobras de dirigentes inescrupulosos. Como saída para essa situação calamitosa, Erinilton aponta a necessidade de “levar uma boa formação às massas, para que o povo não mais seja ‘bicho da fazenda’ conduzido pelos porcos orwellianos, tanto os esquerdistas, quanto os direitistas.” Entretanto, qual seria a melhor formação para o povo brasileiro?

Acredito que a única educação capaz de libertar o povo dos perigos da manipulação é aquela que possibilita o desenvolvimento de uma moral autônoma, ou seja, aquela que fortalece a razão interna do sujeito para que ele seja capaz de decidir por si próprio qual o melhor caminho a tomar. Com efeito, esse tipo de orientação aparece até mesmo nos documentos oficiais do Sistema Nacional de Educação Escolar, que tem como objetivo formar cidadãos autônomos, críticos e conscientes. Todavia, a realidade das escolas brasileiras passa muito distante desse discurso. O que se vê, na maioria das instituições de ensino público são estudantes massacrados por atividades mecânicas e repetitivas, sem qualquer significado válido para as suas vidas, a não ser a possibilidade de conseguir uma vaga no mercado de trabalho após a obtenção do diploma.

O processo de formação dos profissionais da educação tem uma parte da responsabilidade nesse problema, os baixos salários pagos aos professores também, mas, a meu ver, o principal culpado pelo fracasso da educação brasileira na tarefa de desenvolver a autonomia e o pensamento crítico, é o próprio sistema de ensino que, organizado de forma hierárquica, obriga os professores a executar projetos e programas de cuja elaboração eles não foram convidados a participar. Qualquer um que já entrou numa sala de aula, no papel de professor sabe que, muito mais do que as questões relacionadas ao conhecimento da disciplina que leciona, esse profissional é absorvido pelo desafio de atender às exigências da secretaria de educação e da coordenação da escola com relação à disciplina dos alunos, horários, conteúdos, avaliações, notas, etc.

Não estou aqui querendo defender o comodismo de alguns profissionais que, diante dessas dificuldades, acabam optando pelo mais fácil que é, quase sempre, mandar abrir o livro didático na página tal, ler tal texto e fazer tais exercícios que depois serão corrigidos. Entretanto, acredito ser oportuno questionar a possibilidade do desenvolvimento da criticidade e da autonomia num ambiente que, em tudo, reproduz as condições de um trabalho alienado. Se o professor é um simples executor de tarefas, sendo obrigado a cumprir programas que são determinados por órgãos externos, como exigir que ele desenvolva em seus alunos uma autonomia que não possui?

Mas se a escola falha na tarefa de desenvolver a autonomia e a criticidade, a culpa não é só dela, nos dias de hoje, ela divide a sua tarefa educativa com os meios de comunicação, principalmente, a televisão. De fato, pesquisas revelam que escola e televisão ocupam a maior parte do tempo das crianças e jovens brasileiros. O potencial formador dessas duas instâncias, no entanto, é utilizado em direção contrária ao desenvolvimento da autonomia, isso porque escola e mídia estão submetidas ao mercado: a escola, quando estabelece seus programas de conteúdos e metodologias tendo em vista apenas o mercado de trabalho; e a televisão ao incutir nos jovens a idéia de que plenitude, liberdade, felicidade e até mesmo autonomia são conquistas relacionadas ao consumo de produtos e serviços.

Em minha opinião, é impossível pensar a formação de um sujeito moral e intelectualmente autônomo sem questionar a lógica da produção e do consumo capitalistas. Entretanto, parece-me pouco produtivo sair por aí bradando contra os Estados Unidos ou pichando muros com a frase: Abaixo o imperialismo, como fazem grande parte dos movimentos sociais. Para formar sujeitos moral e intelectualmente autônomos é indispensável colocá-los em contato com as expressões criativas legítimas: as obras da literatura, filosofia, artes plásticas, música, cinema e teatro. Somente através da emoção, que a fruição estética proporciona, é possível despertar as pessoas para outros valores, para a compreensão de outras formas de organizar e desfrutar a vida.

Isso pode parecer grandioso demais, dada a distância entre povo e arte, contudo, a meu ver, essa distância existe menos pela complexidade das grandes obras e mais por uma cultura do imediato. Cultura essa que prioriza o prazer efêmero em detrimento das grandes realizações e que é fortalecida por um sistema de ensino e um veículo de comunicação de massas orientados por razões comerciais. Modificar essa cultura é o grande desafio, para isso, aposto na criação de centros culturais onde as pessoas não só entrem em contato com grandes obras de arte e do pensamento, mas que também sejam incentivadas a participar da produção de peças de teatro, filmes, a escrever histórias, poemas, etc. Essa é, enfim, a tarefa a que nós do Movimento Algaravia estamos nos dedicando.

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