Apresentação

Partimos do pressuposto existencialista segundo o qual “o homem primeiramente existe, se descobre, surge no mundo; e só depois se define” (SARTRE). Assim, não acreditamos num sentido para a vida dado à priori, mas na construção desse sentido a partir das escolhas que fazemos ao longo da existência. Essa construção, no entanto, é realizada a partir de um mundo social. Como esse mundo social nos antecede, somos levados a crer que ele é algo fixo e imutável e a escolher de acordo com os valores e padrões já estabelecidos, como se nada pudesse ser mudado.

A proposta do Movimento Cultural Algaravia é “desnaturalizar” o mundo social a fim de que outros sentidos para a vida (além dos construídos pelo sistema de produção-consumo-mais produção-mais consumo) possam emergir. Utilizando as linguagens da Literatura, do Cinema, do Teatro e da Filosofia, pretendemos abrir espaços para que idéias, sentimentos, significados se cruzem, se confrontem, se interpelem e se complementem forjando uma abertura para novas possibilidades de compreensão e atuação na vida.

domingo, 6 de julho de 2008

A dissonância como princípio



Por Ednéia Angélica Gomes


A primeira sessão de filme comentado do Movimento Cultural Algaravia, realizada no sábado 28 de junho, teve mais comentários do que filme. Tal fato, entretanto, em nada diminuiu a importância do encontro. Regado a muito vinho, o debate versou sobre os mais diversos temas e, como sempre, o confronto de opiniões e pontos de vista se fez presente. Aliás, a divergência de pensamento não é apenas aceita pelo Movimento, ela é o seu princípio constitutivo, uma vez que é na diversidade de abordagens e análises que pretendemos construir saídas (e não uma saída única) para uma vida mais plena, livre das amarras da sociedade de consumo.

Logo no início do encontro, uma de nossas companheiras lembrou-nos da responsabilidade que devemos ter em relação à influência que exercemos sobre as novas gerações. A isto uma outra companheira respondeu que a nossa responsabilidade não deve ser nada além de subverter, pois para conformar a juventude à lógica social hegemônica já existem as instituições como a escola e a igreja, por exemplo. Instituições essas que, na opinião de alguns, deveriam ser abolidas. Ainda, com relação às futuras gerações, merece destaque o fato de que no Movimento Cultural Algaravia elas também têm voz e fazem uso dessa voz, mesmo que seja para criticar um dos nossos companheiros pelo tratamento injusto, segundo elas, que ele dispensaria à esposa.

O debate prosseguiu passando movimentos artísticos como impressionismo, expressionismo, surrealismo, nas artes plásticas e na literatura. O papel das artes na transformação social foi colocado em questão e alguns companheiros contribuíram bastante para essa discussão ao lembrar que toda arte tem um efeito transformador, mesmo quando não engajada em movimentos políticos e sociais. Toda arte “verdadeira” sensibiliza e desperta o sujeito para uma reflexão existencial contribuindo, dessa forma, para a sua transformação. O problema está no fato de que a arte, nos dias de hoje, anda muito distante do grande público. A indústria cultural ocupa quase a totalidade da mídia com seus programas de entretenimento que embotam a capacidade das pessoas de pensar a sua própria realidade. Parece lógico, para grande parte das pessoas, que depois de um dia duro, respirando o ácido da fábrica, deve-se assistir as telenovelas para esquecer.

No que se refere à política, as alternativas ao neoliberalismo esboçadas por alguns países da América Latina foram destacadas. O governo Lula dividiu opiniões. Em Filosofia, Thomas Hobbes foi utilizado na análise do documentário Notícias de uma Guerra Particular. Ao definir o homem como o “lobo do homem” Hobbes defende a criação de um Estado que estaria acima dos interesses particulares. Este Estado (que afinal não está realmente acima dos interesses particulares), quando não assegura condições mínimas para a vida permite o aparecimento de alternativas de trabalho e renda como o narcotráfico, que desestabilizam o “pacto social”. Contudo, a discussão mais espinhosa esteve relacionada à questão da existência de Deus. Isso porque, entre nós, as convicções religiosas são as mais diversas: catolicismo, espiritismo, ateísmo, panteísmo, agnosticismo, e por aí vai...

Algumas decisões foram tomadas com relação à continuidade do Movimento: 1) que as reuniões devem acontecer semanalmente; 2) que os companheiros Edgar e Erinilton ficam responsáveis pela escolha dos filmes e pelos comentários; 3) que a bebida só será liberada após o filme e os comentários.

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