Apresentação

Partimos do pressuposto existencialista segundo o qual “o homem primeiramente existe, se descobre, surge no mundo; e só depois se define” (SARTRE). Assim, não acreditamos num sentido para a vida dado à priori, mas na construção desse sentido a partir das escolhas que fazemos ao longo da existência. Essa construção, no entanto, é realizada a partir de um mundo social. Como esse mundo social nos antecede, somos levados a crer que ele é algo fixo e imutável e a escolher de acordo com os valores e padrões já estabelecidos, como se nada pudesse ser mudado.

A proposta do Movimento Cultural Algaravia é “desnaturalizar” o mundo social a fim de que outros sentidos para a vida (além dos construídos pelo sistema de produção-consumo-mais produção-mais consumo) possam emergir. Utilizando as linguagens da Literatura, do Cinema, do Teatro e da Filosofia, pretendemos abrir espaços para que idéias, sentimentos, significados se cruzem, se confrontem, se interpelem e se complementem forjando uma abertura para novas possibilidades de compreensão e atuação na vida.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Azul e Amarelo

Outra vez a casa. Muitos cômodos, janelas de madeira, o pôr do sol de primavera depois da chuva entrando pela cozinha. Formigas voadoras. De novo, a casa e todos os que a ela pertencem: meu pai já falecido, minha mãe, meus irmãos, minha filha ainda não nascida quando meu pai faleceu. De pé, junto ao fogão de lenha, a mãe cozinha. Sentada num banco, perto da porta, eu observo. Sou criança, tenho fome.

Fundir desejos inconciliáveis são coisas que os sonhos fazem muito bem. Eu acordo envolvida pela fumaça e pelo calor do fogão de lenha, como se um momento de harmonia, apenas, fosse suficiente para apagar a tensão e a dor que marcaram a minha infância. Eu acordo com saudades de uma família que inventei para escapar das que tive.

Eu acordo fracassada, por nunca ter tido uma casa grande, por nunca ter conseguido amar com a regularidade e a freqüência que, suponho, mantém uma família. Eu acordo, mas continuo a vagar pela casa: entro no quarto do meu pai, que já faleceu, no quarto que dormi com o meu marido que se foi, passo pelo quarto que dividi com a minha filha, que não mora mais comigo. Estou sozinha, como sempre estive. Trancada dentro de mim mesma, entre paredes amarelas e azuis.

Ednéia Angélica Gomes

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