Por Ednéia Angélica Gomes
A língua é um organismo vivo e acompanha transformações sociais, históricas e culturais por que passa uma sociedade. A palavra algaravia é um bom exemplo disso, documentada no século XIV, significava apenas a língua árabe: al-'arabiyah. Depois da expulsão dos árabes da Península Ibérica, no entanto, essa palavra passou a significar gritaria, confusão de vozes, linguagem impossível de entender, adquirindo um sentido pejorativo na medida em que os falantes dessa língua tornam-se mal vistos, num contexto social específico.
Por outro lado, em toda sociedade existe um discurso social hegemônico. Esse discurso apresenta características específicas segundo Valdemir Miotello, algumas das quais considero importante destacar: 1º) a fala vem sempre do setor dominante; 2º) esta fala, supostamente inclui no discurso os excluídos, entretanto, embora pareça haver um lugar de inclusão dos discursos dos excluídos nessa fala, são os dominantes que falam por eles e para eles; 3º) trata-se de um discurso eminentemente ideológico e, como tal, esconde mais do que revela.
Esse discurso social hegemônico controla os “sentidos” produzidos por uma sociedade na medida em que todas as falas que destoam desse discurso não têm os seus significados reconhecidos. Um bom exemplo disso é a incorporação dos ícones do capitalismo ao imaginário social. Vestir uma roupa da moda, ouvir determinado cd, possuir esta ou aquela marca de eletrodoméstico tornou-se parte constitutiva da identidade dos sujeitos, de tal forma que aquele que não cede aos apelos consumistas da mídia (porque não quer, ou porque não pode) é considerado (pelos outros e por si próprio) estranho, inferior.
É nesse sentido que o nosso Movimento Cultural é uma Algaravia. É porque tem a intenção de reunir vozes estranhas e ininteligíveis dentro da lógica social dominante. Vozes essas que, separadas, caem no vazio, mas, uma vez reunidas podem ganhar força e desagregar alguns consensos estabelecidos.
Contudo, a palavra algaravia não é simplesmente resgatada pelo nosso movimento, mas também o seu significado perde o valor negativo do qual estava revestido. Algaravia significa, para nós, a coragem de dizer algo diferente dos discursos dominantes repetidos à exaustão pelas mídias. Significa a possibilidade de fazer uma crítica ao sistema social do qual fazemos parte.
Apresentação
Partimos do pressuposto existencialista segundo o qual “o homem primeiramente existe, se descobre, surge no mundo; e só depois se define” (SARTRE). Assim, não acreditamos num sentido para a vida dado à priori, mas na construção desse sentido a partir das escolhas que fazemos ao longo da existência. Essa construção, no entanto, é realizada a partir de um mundo social. Como esse mundo social nos antecede, somos levados a crer que ele é algo fixo e imutável e a escolher de acordo com os valores e padrões já estabelecidos, como se nada pudesse ser mudado.
A proposta do Movimento Cultural Algaravia é “desnaturalizar” o mundo social a fim de que outros sentidos para a vida (além dos construídos pelo sistema de produção-consumo-mais produção-mais consumo) possam emergir. Utilizando as linguagens da Literatura, do Cinema, do Teatro e da Filosofia, pretendemos abrir espaços para que idéias, sentimentos, significados se cruzem, se confrontem, se interpelem e se complementem forjando uma abertura para novas possibilidades de compreensão e atuação na vida.
A proposta do Movimento Cultural Algaravia é “desnaturalizar” o mundo social a fim de que outros sentidos para a vida (além dos construídos pelo sistema de produção-consumo-mais produção-mais consumo) possam emergir. Utilizando as linguagens da Literatura, do Cinema, do Teatro e da Filosofia, pretendemos abrir espaços para que idéias, sentimentos, significados se cruzem, se confrontem, se interpelem e se complementem forjando uma abertura para novas possibilidades de compreensão e atuação na vida.
domingo, 22 de junho de 2008
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Um comentário:
O texto apresentado é a própria algaravia. Um marxismo chulé que transforma até a língua, que é uma criação de TODA a sociedade, em mais uma tramóia das classes dominantes para....dominar as classes dominadas. onde já se viu tanto lixo ideológico? A autora deve se achar o Ó do Borogodó. Tamb´pem, em um país que foi dominado pelo marxismo chulé, não espanta.r.
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